da obra "a mão do diabo" em dia de greve geral…

© Google | Miguel Lima (Tomo II)
caríssima(o),
serei (muito) breve. quanto mais não seja porque hoje é dia de greve geral. e porque temos que economizar – e eu vou começar por fazê-lo nas palavras (será difícil, mas vou tentar).
queres compreender um pouco melhor a crise que vivemos actualmente e que já se designa por «segunda grande depressão»?
então (e na eventualidade de ainda não o teres feito), recomendo-te a leitura e/ou visualização atenta:

1)

do interessantíssimo capítulo XIX do livro mais recente de José Rodrigues dos Santos, “a mão do diabo;

2)

as notas finais do livro em causa, pelas sugestões de leitura que o autor aponta;

3)

(porque é referido no livro em causa) de um documentário interessante sobre a crise argentina e posterior revolta popular, em 2001;

4)

deste artigo sobre o despesismo público, publicado no jornal “o diabo”, a 12 de Outubro de 2010;

5)

(porque, mais do que ser referido na obra em apreço, é um dever de cidadania) do memorando assinado com a troika que nos há-de parir – na sua versão original, com posterior tradução para o Português.

beijinhos e abraços (muito depauperados mas sempre muito portistas)!
Muito Obrigado! pela tua visita 🙂

"o cano de uma pistola pelo cu"

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Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista “manchesteriano” sobre o trabalhador explorado. 
A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas – e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar: estamos a falar da colheita de um indivíduo; mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva; um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e que se deita à meia-noite; um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro (tal como se movem os peões no “Jogo da Glória“).
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, “coisifica-a“. 
Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico, que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país – este, por acaso -, e diz “compro” ou “vendo” com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública os filhos – onde aquelas ainda existem –; os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa “coisa” a que chamamos “Europa” ou “União Europeia” – ou mais simplesmente Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres. E que não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo; são-no num movimento especulativo promovido por Merkel, com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais; tu e eu já fomos “coisificados” por Draghi, por Lagarde, por Merkel; já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes – somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública; tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada «prémio de risco», por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. 
Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. 
Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma! Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Na economia financeira modifica-se o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais: enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus!, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investistes, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Realisticamente vendeu-te “fumaça”, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela, e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro!, e embalar, e distribuir, e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Ou seja: uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. 
A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico; precisa também do nosso sangue e está nele. Por isso brinca com a nossa Saúde Pública, e com a nossa Educação, e com a nossa Justiça, da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

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fonte: jn.pt

ps: os negritos, os itálicos e os sublinhados são da minha responsabilidade.

um grito de revolta

 

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[…]
Eu não viria de modo algum falar neste assunto se a ‘Imprensa’ da Capital pusesse um pouco de parte o seu facciosismo e fizesse com imparcialidade e lealdade o relato de todos os desafios. Mas assim não procedeu e os jornais que têm a sua ‘secção desportiva’, e que pelo menos costumam anunciar aos seus leitores os resultados dos desafios, deixando desta vez de o fazer.
[…]
O desafio, jogado contra o Benfica, em Sete Rios, foi ganho pelo FC Porto, por 3-2. 
No dia seguinte, este resultado não foi noticiado em nenhum dos jornais de Lisboa que mantêm ‘secção desportiva’. A razão deste silêncio? É simples: Lisboa, em Futebol, há dez anos ou mais, que estava habituada a vencer o FC Porto, conseguindo vitórias mais ou menos fáceis, mais ou menos difíceis. Este ano o FC Porto quis vencer e venceu; e para isso trabalhou com vontade, desfazendo assim a ideia que muitos tinham de ser impossível e tão cedo, o Norte triunfar do Sul. Eis a razão por que foi tão pouco falada a vitória dos portuenses.
Quanto aos jornais desportivos, um deles, que por sinal costuma trazer uma resenha bastante desenvolvida dos bons desafios, limita-se a fazer uma pequena apreciação (que por acaso não condiz nada com o título), e essa mesma feita em tipo pequeno, como que a ver se passava despercebida.
Inclusivamente, em lugar de dizer, “o FC Porto venceu o Benfica”, diz “team do Porto vence o Benfica”. Faço esta pequena observação, que poderia parecer sem importância, mas é para que todos fiquem sabendo que o grupo que foi a Lisboa é única e exclusivamente de elementos do FC Porto e não com alguns do Oporto Cricket Club, como um outro jornal desportivo da capital fez constar.

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fonte: Bibó FC Porto, carago!

ps: os negritos, os itálicos e os sublinhados são da minha responsabilidade.

caríssima(o),
o excerto do «grito de revolta» acima transcrito (como lhe chamou o caríssimo Fernando Moreira, mais conhecido por “dragão azul forte” no “Bibó Porto, car@go!“) é da autoria de uma antiga glória que defendeu as nossas cores de forma acérrima e abnegada (e como facilmente se comprova), de seu nome Alexandre Cal.

no seu teor, Alexandre Cal refere-se ao desafio de 04 de Abril de 1920, frente ao eterno rival, disputado em Sete Rios (bem no coração da capital do Império). 

dessa partida há a salientar que « numa tarde histórica, o FC Porto conseguiu, enfim, bater o Benfica. Por 3-2. O FC Porto esteve a vencer por 3-0, com golos de Alexandre Cal (2) e Joaquim Reis. O Benfica reduziria para 1-3, mas, antes do segundo golo dos encarnados, os portistas perderam duas grandes penalidades – “Uma foi enviada às mãos do guarda-redes do Benfica. Outra passou ao lado da baliza”. Nessa exibição do FC Porto, apareceu pela primeira vez na sua equipa o admirável Norman Hall. Já nessa altura a imprensa de Lisboa dava pouco destaque às vitórias do FC Porto mas, como a foto documenta e quase uma semana depois [!!!], o “O Sport de Lisboa” não deixou passar em claro o triunfo, e acentua que os portistas ganharam “com superioridade”. »
o título de imprensa pertinaz e orgulhosamente portuense “O Primeiro de Janeiro” fez eco do que é escrito no último período da citação acima; atente-se bem nas seguintes linhas:

«

O nosso Campeão venceu o fortíssimo agrupamento da Capital por 3-2. É um resultado que deve animar extremamente os nossos amadores de futebol, amigos da sua terra. 
O que é estranhável, e até certo ponto digno de censura, é o facto de nenhum dos jornais de Lisboa se referir a este encontro, noticiando o seu resultado, quando é certo que, quando os portuenses perdem, a imprensa local está sempre pronta a fazê-lo. 

A verdade, porém, é que desta vez e em campo “estranho”, o FC Porto conseguiu vencer o Benfica numa luta renhida e interessante, na qual foi necessário empenhar todos os esforços e energias.
O Benfica apresentou-se com o seu melhor núcleo de jogadores, o que torna a vitória do FC Porto duplamente honrosa. Esse resultado foi de 3-2, sendo os golos do Benfica marcados de ‘
penalty’

Salientaram-se, por parte do FC Porto, o keeper Lino, o half Floriano e os forwards Alexandre Cal e Norman Hall.

A assistência, que era numerosa, reconheceu o valor da equipa portuense e manifestou-lhe, por vezes, a sua simpatia [!!!].

»

noventa e dois anos depois (!!!) do que é descrito nas linhas anteriores, é com um misto de profunda revolta interior e tristeza sarcástica que constato que ainda persiste aquele «facciosismo», generalizado a toda a Comunicação Social portuguesa – mas com o expoente máximo da parcialidade a se revelar no canal (muito pouco, ou quase nada) público de televisão (dado que a SIC, a TVI e o pasquim da Travessa da Queimada mais não são do que órgãos de comunicação oficiosos de um certo e determinado clube dito «glorioso»).

se dúvidas houver do que afirmo, refiro três breves exemplos:

1) a lisura com que aquela mesma Comunicação Social branqueia o caso Paulo Pereira Cristóvão (já se passaram quatro meses e… ainda se aguardam por conclusões), se comparado com a forma como se insurgiu aquando dos processos “Apito Dourado” e “Apito Final”;

2) o enfado com que se vê compelida a noticiar «episódios caricatos» cujos protagonistas são afectos à agremiação lampiónica de Carnide, quase sempre desculpando-os e desresponsabilizando-os na apresentação das peças jornalísticas – o que não se verifica quando factos em tudo idênticos são desempenhados por atletas que envergam o nosso manto sagrado;

3) a desfaçatez com que o director de programas do canal (muito pouco, ou quase nada) público de televisão procedeu à substituição do comentador residente afecto à causa lampiónica, no “Trio de Ataque”, irresponsavelmente preterindo um benfiquista cordato e civilizado por uma abécula nojenta, primitiva, primária e básica (e que muito provavelmente deve entrar de lado no estúdio) – “cagando de alto” para os tele-espectadores do dito, preferindo a lavagem de roupa suja à etiqueta e à cortesia.

penso que nada mais haverá a acrescentar, pelo que serve esta “posta de pescada”® para memória futura e (in)tentar contrariar muito boa (?) gente que por aí gravita, que se considera dona e senhora da Verdade desportiva ou outra qualquer), “esquecendo-se” que a sua cor clubística preferida também tem telhados de cristal.

disse!

Porto: cidade de Carácter

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cidade de carácter

Quem conhece a cidade do Porto, sabe que está diante de uma com um grande, um enorme carácter.

Sampaio Bruno caracterizou bem esta marca tipicamente portuense, quando afirmou «no Porto, o pão tem que ser laboriosamente conquistado dos lucros do comércio», numa referência, àquela época, às características mais marcantes da cidade: o trabalho e o negócio daquele a que se chamava «o burguês do Porto», homem de negócios honrado e trabalhador.

«Cidade do entardecer e presa nocturna», como lhe chama(va) Agustina, o Porto é hoje uma cidade encalhada no tempo, «como a quilha de um barco imenso, naufragado» – a imagem com que esta escritora definiu a Cadeia da Relação, um edifício de matriz filipina, vigilante no vértice triangular daquilo que foi a última judiaria desta nossa cidade.

carácter no sítio e nas pessoas

No Porto, há carácter no sítio e nas pessoas, na força do património histórico e arquitectónico, e na nostalgia de um tempo passado, que parece não sermos, capazes de balançar para o Futuro.
O Porto é, a vários títulos, uma cidade encalhada no Tempo que corre célere a seu lado; mas parece não ser capaz de a despertar desta agoniante letargia. Dela, já se pode dizer que «continuou o seu labor de capital telúrica de Portugal», como afirmou Miguel Torga, pois embora continue a ser «a velha e livre cidade do Porto», a sua voz mal se faz ouvir e «quando espirra [se é que ainda o é capaz, já não] constipa Lisboa».

Toda esta retórica para afirmar, com tristeza e muito pessimismo, que o Porto – a sua voz e a sua força de carácter – já não conta(m) ou não vale(m) no todo nacional. Evidentemente que não é esse o sentido desta crónica (ou não o deveria ser).
A cidade do Porto continua a ser «um caso de sobrevivência histórica», como o disse João Chagas. «Pelo seu carácter e pelos seus costumes, resume Portugal na velha feição municipalista»; e é nessa matriz definidora e clarificadora que deve procurar o seu rumo futuro, não num municipalismo estático e isolado no bastião das burocracias e nos pequenos interesses de partido ou de facção, mas num rasgado e moderno municipalismo metropolitano e regional (porque abrangente e justamente mais solidário) – definidor e fortalecedor de um território de escala e com potencialidades competitivas e sem perda de carácter e de identidade.

ultrapassar indecisões

A matriz que a cidade do Porto construiu ao longo dos séculos, com coragem e muito sacrifício, e agora, nesta encruzilhada de indecisão, deve ser capaz de ultrapassar e de reafirmar os seus princípios identitários, porque eles são a alma, a génese e o suporte do seu caminho futuro.

Se ainda há quem acredite que o Futuro se constrói no vértice das convicções e do carácter, então a cidade do Porto terá ai um lugar, sem dúvida!

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autor: Gomes Fernandes

fonte: Jornal de Notícias
(edição impressa
, em 2011-10-10, pp. 24-25)

ps: os negritos, os sublinhados, as “aspas” e os itálicos são da minha responsabilidade.

no seguimento deste (enorme) artigo de opinião, recomendo a leitura:

1) do artigo de opinião “Ribeira“, da autoria de Germado Silva;

2) do artigo “circular é viver ou morrer?” – a propósito de como se conduz na VCI -, da autoria de Jorge Vilas;

3) da notícia do abandono a que está submetido todo um quarteirão em plena Baixa;

4) da notícia “deserto frio de almas vagabundas“, datado de Dezembro de 2010 mas bastante actual.

beijinhos e abraços (com muito carácter tripeiro)!
e MUITO OBRIGADO! pela tua visita 😉

mamas e afins

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eu já tive dois montes no Alentejo: chamava-se Carla.

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ontem, um elemento do sexo feminino acusou-me de estar obcecado com mamas.
eu encarei o problema de frente e inquiri:
– porque é que dizem isso?

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          fonte: Paga o que deves, Nilton.
caríssima(o),
porque já convivi (de perto) com tal “problemática” e porque actualmente o “Paga o que deves é o meu livro de cabeceira, não resisti a partilhar contigo aquelas duas pérolas de fino humor luso.
ps: porque não pretendi cair na facilidade de colocar uma imagem (digamos) mais apelativa, para embelezar este singelo post, optei por divulgar o trabalho de (mais) um cartoonista de sucesso. é que para tal basta fazer uma pesquisa no Google® com as palavras-chave. 😉

beijinhos e abraços (decotados)!
e Muito Obrigado! pela tua visita 🙂

sugestão musical: Quim Barreiros, «cabritinha»